ISSA SAMB "JOE OUAKAM", O ARTISTA COMPLETO

Escrito em 28/04/2017 por Aboubacar Demba Cissokho

Tradução: Rose Mara Silva



No dia 25 de abril  de 2017 faleceu um ícone das artes, Issa Samb, aos 71 anos de idade.

Segue uma homenagem ao artista prestada pelo jornalista Aboubacar Demba Cissokho.





O escultor, poeta, pintor, escritor e performer Issa Samb do Senegal, mais conhecido pelo nome artístico de Joe Ouakam, que faleceu em 25 de abril de 2017, aos 71 anos, tinha a dimensão de um filósofo que, depois de ter dominado questões do seu tempo, foi chamado para viver uma plenitude assumida.

A impressão de conhecê-lo estava presente o tempo inteiro nos espíritos, sua silhueta era familiar e visível nas ruas de Dakar, onde andava regularmente para sentir a respiração e a vida. Mas essa impressão era muito imprecisa, uma vez que  Issa Samb também era  mistério e enigma. Talvez nunca soubemos como identificá-lo. Por quê? Porque ele era ao mesmo tempo: escultor, pintor, poeta, dramaturgo, ator ... Ele tinha várias cordas em seu arco, o que fez dele um artista inclassificável, um artista integral, no sentido de que estes diferentes aspectos de sua personalidade formavam um todo. Issa Samb foi uma figura emblemática da cena cultural senegalesa como raramente existiu, pois suas obras eram iconoclastas, envolventes, misteriosas e um tanto controversas.

Nascido 31 de dezembro de 1945 em Ouakam, era filho de um digno Lébou. Da educação que recebeu de seu avô, guardião de tradições ancestrais de sua comunidade, Joe Ouakam adquiriu um talento de observador e protetor de imagens, do imaginário e símbolos referentes a uma visão de mundo endógena e aberta, ele sabia decodificar o sentido. "Toda a minha vida eu me debati com a idéia, o tempo. Em todos os momentos, eu exploro a alma, esse poço profundo... ", recordou na décima segunda edição da Bienal de Arte Africana Contemporânea (Dak'art), em 2016, evento no qual foi homenageado.

Em meados dos anos 1960, Issa Samb se matriculou na Escola Nacional de Artes e da Universidade de Dakar - onde estudou direito e filosofia. Neste momento, a corrente de pensamento fundada  pelo ex-Presidente senegalês Léopold Sédar Senghor dava contornos e alma ao que ficou conhecido como a Escola de Dakar, da qual ele manteve distância uma vez que  sua personalidade artística começava a se formar e se afirmar.


Joe Ouakam criticava abertamente a visão da política cultural Senghor, denunciando tendências de domesticação das artes pela política. Ele queria que  a liberdade,  base da criação artística, fosse plenamente respeitada e que os artistas se esforçassem para criar estruturas próprias, associações autônomas, independentes de opções partidárias. É neste dissidência clara e com esse espírito profundamente rebelde que Issa lançou no início de 1970 - com o ator e diretor Djibril Diop Mambéty (1945-1998) e outros artistas reunidos em um coletivo - o Laboratoire Agit-art, um movimento de reflexão sobre arte e sua relação com a  vida  social e política do Senegal.

O artista tinha seu ateliê no centro de Dakar, onde viveu até quatro meses antes de sua morte, entre suas obras, documentos de todos os tipos (jornais, cartas, cartazes ...), e objetos coletados durante as peregrinações que fazia em Dakar, da qual gostava de sentir o pulso e os impulsos. Por mais de quarenta anos, esta galáxia constituiu uma exposição permanente, tornando-se atração para os amantes da arte.


Era comum Joe Ouakam, autor de instalações e espetáculos ao vivo, estrelar suas próprias performances - a última aconteceu no início de dezembro 2016 - em que ele era ao mesmo tempo autor, ator e diretor, e por meio de gestos bem colocados, Joe colocava questões filosóficas sobre o seu próprio caminho e o de seu país, muitas vezes sob o olhar de transeuntes distraídos que nem se davam conta. Através desta abordagem, o artista desenhou seu caminho singular, longe do consenso dos espaços expositivos tradicionais que eram as galerias e outros espaços de arte.

Isso não significa que ele fosse contra esses lugares, tendo-se exposto em várias partes do Senegal e no exterior. Em 2010, a Galeria Nacional de Arte em Dakar tinha dedicado uma retrospectiva a Samb. No mesmo ano, o músico e cineasta senegalês Wasis Diop organizou uma exposição intitulada "La cour de Joe Ouakam."

As exposições de Joe Ouakam - pessoais ou com outros artistas - começaram no início de 1980. Entre 1981 e 1998, ele exibiu em Harare, Dakar, Londres, em diversos espaços (Galerias Tenq, Combar, 39 Galeria do Centro Cultural francês, Quatro Ventos Galeria com Viye Diba, "África 95" na Galeria Whitechapel, em Londres ...).

Issa Samb apareceu em vários filmes de ficção e documentários, incluindo “Hyènes” por Djibril Diop Mambéty (1992),  Impressions et La fête silencieuse de Jean Michel Bruyère (1999). Também atuou em An Alè do artista haitiano Toto Bissainth (1990). Além dessas obras foi autor dos livros Poto-Poto Blues (Editora Feu de  Brousse, 2004), Les criquets (Editora  Feu de Brousse, 2009), e L’écume du Soleil (Editora Abis, 2016).
"The missing link"

O caráter  multidisciplinar do trabalho Issa Samb teve uma dimensão que lhe fez pertencer, nas palavras do músico Wasis Diop, a uma "constelação", na qual estão, seu companheiro Djibril Diop Mambéty e seu discípulo Bouna Médoune Sèye.






Publicado originalmente em: http://www.contemporaryand.com/fr/magazines/issa-samb-joe-ouakam-all-round-artist/

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